Opinanço

O Blog onde é obrigatório ter opinião sobre tudo (cinema, música, futebol, política, etc etc etc)

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Farpas

Caríssimos,

Enquanto ainda sou estudante e com menos trabalho do que alguns de vós que de Sol a Sol labutam para colocar a massa de trigo e água na mesa, faço por ocupar as minhas (muitas) horas livres com actividades que possam ser construtivas (como a leitura de livros, cartões de trivial e artigos de enciclopédia, que pode estar relacionada com a minha participação no cofre).

Decidi começar a ler um livro de comentários, "Uma Campanha Alegre de «As Farpas»" feitos pelo mais irónico escritor da história recente do país, Eça de Queiroz, que, por acaso, é também o meu preferido, e compilados por Antero de Quental.

A primeira coisa que vamos percebendo, à medida que percorremos as páginas com os olhos e as interpretamos com a massa cinzenta, é que em 130 anos o País mantém-se na mesma, muda-se os sistemas políticos (monarquia -> ditadura -> democracia), mudam os dirigentes, muda o povo, mudam os sistemas e com tudo isto renova-se a nossa mediocridade.

Um pequeno excerto:

"Nação, Nação, boa amiga, não nos queiras mal! Tu és velha, tu és fabulosamente velha, tu és de além da campa! Mas tens o carácter firme. E no meio da leviandade movediça destes partidos liberais - tu tens uma vantagem. Lançaste a âncora no meio do oceano e ficaste parada. Estás apodrecida, cheia de algas, de conchas, de crostas de peixes, mas não andaste no ludíbrio de todas as ondas e na camaradagem de todas as espumas! Tu eras excelente - se fosses viva. Mas és um jornal sombra. És tão viva como o Eneias. Tão contemporânea como Telémaco."

Para os mais distraídos, uma pequena biografia de Eneias e Telémaco:

Eneias - Chefe troiano filho de Anquises e Vénus.
Telémaco - Filho de Ulísses e Penélope.

Donde concluímos que a Nação está tão viva como os mortos de há 2500 anos e é tão contemporânea como os tais de há 2500 anos.

Desafio-vos a ler este livro, substituam as palavras 'monarquia' por 'democracia', 'D. Luís I' por 'Sócrates', 'Antero de Quental' por 'Miguel Sousa Tavares' e 'Verdi' por 'Axel' e verão a actualidade desta obra, que, arrisco-me a dizer, poderá tornar-se imortal não acorde o País da letargia em que se encontra.

Cabe-nos, a nós, à geração jovem, mudar este estado de coisas, trabalhar para desactualizar as Farpas, fazer com que os que aí vêm não percebam do que é que o Eça poderia estar a falar quando se referia ao País nestes termos.

Voltemos aos tempos de glória de D. João II (a última altura na história em que estivemos na mó de cima) ou voltemos a ser integrados na vizinha Espanha. A decisão está nas nossas mãos, geração de 1975 - 1990!

Um provérbio inglês:

"Idle hands are Devil's workshop"