Opinanço

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segunda-feira, novembro 07, 2005

ONDE ESTÁ O 'M'?

Tenho de transcrever este artigo de opinião que saiu num suplemento do Diário de Notícias que costuma sair às 6ªs feiras (DNa) e que tem sempre uma parte sobre música.
O artigo fala sobre a MTV e da sua evolução ao longo do tempo... revi-me em algumas coisas que este senhor disse, e gostaria de partilhar com vocês.
Aquele Abraço para todos.

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"Há dias perguntavam-me que importância tinha tido a MTV na minha formação. A estação inaugurou em 1981 e a minha relação com a pop começara dois anos antes, em 1979, com o mesmo Video Killed The Radio Star que abriu a estação. Ou seja, pertenço à primeira geração MTV. Mas teve o canal alguma projecção nos meus hábitos musicais? Não. Absolutamente nenhuma! É certo que, com a alvorada de 80 (e a entrada em cena da MTV), o teledisco passou a ser, não um complemento ocasional de cada novo single, mas antes uma ferramenta fundamental na sua promoção. Contudo, nos dias de 80, eu, como qualquer outro português, via os novos telediscos no Vivamúsica de Jorge Pêgo, depois no Videopólis do meu amigo Álvaro Costa. E, mais tarde, nas emissões da Europa Television (no Countdown, com Adam Curry, mais tarde VJ da MTV) e Music Box (com Nino Firetto e Simon Potter, entre outros), em espaços na grelha das tardes da RTP2. A MTV era realidade que chegava pelas notícias que vinham de fora, e que se via em viagens aos Estados Unidos ou Inglaterra. Em Portugal, entrou primeiro por satélite, só para alguns, bem mais tarde pelo cabo.
Todavia, mesmo ausente do Portugal pop de 80 e 90, a MTV influenciou a história da música. Abriu portas americanas a uma invasão de bandas pop europeias mais conscientes da força da imagem, como os Duran Duran, Culture Club, A-ha ou Wham! Projectou e amplificou novas carreiras americanas cientes da força dessa nova arma áudio e visual, de Madonna a Prince, a Michael Jackson. E, já em 90, promoveu upgrade a terreno mainstream de fenómenos underground, dos Nirvana ao hip hop... A ementa MTV de 80 e 90 era variada. Pop(ular) no seu tronco estrutural, mas com espaço à diferença, a música alternativa em 120 Minutes, o metal em Headbanger's ball, o hip hop em Yo! MTV Raps... A MTV fez carreiras, reinventou carreiras, ressuscitou carreiras. E colocou nos hábitos a ideia do concerto acústico, resultado do impacte do incontornável Unplugged.
Em 90 abriu espaço a programas complementares à música, dos desenhos animados (como Beavis & Butthead ou Daria) à comédia (Jackass ou Punk'd) passando pelas primeiras expressões da reality TV (em The Real World, mais que uma futilidade tele-juvenil, um espelho de comportamentos feito de discreta tele-pedagogia sociológica).
Mas esta não é mais a MTV que hoje temos!
Nos últimos anos, e fruto da abertura de outros canais temáticos no grupo que tem a MTV como uma das suas jóias da coroa, a música esvaiu-se para esses outros espaços televisivos. Em cena entraram reality shows decadentes, fáceis e inconsequentes, do medíocre The Osbournes aos exemplos de tele-lixo para pré-adolescente, seja no formato tens-duas-namoradas-e-escolhes-qual-fica-qual-deitas-fora ou o não muito distante tens-três-candidatas-a-namorada-e-vais-ao-quarto-de-cada-uma-escolher-pelas-tralhas-que-lá-têm-qual-é-que-fica-quais-é-que-se-dispensam... Com mais variantes no género, todas tão consequentes como os D'ZRT na vida futura de qualquer um dos espectadores e candidatos a escolher ou a ser deitados fora...
O que aconteceu à MTV de 1981 a 2005? Perdeu o "M". A música. Ou seja, a característica que dela fez uma estação cultural e socialmente marcante nos anos 80 e 90, fonte clara de um dos mais evidentes fenómenos de globalização de hábitos de consumo e de comportamentos, através das redes MTV espalhadas pelo mundo.
A MTV é hoje apenas uma TV. Medíocre e vazia. E com música como complemento a uma receita básica de entretenimento oco e básico. E que música? Bom, nos anos 80 a MTV foi acusada de racista por excluír tudo o que não fosse pop/rock de pele branca. Que dizer do panorama actual?... Nem vale a pena comentar, tão parcial e falso que é o retrato musical do presente que o canal mostra, quando chegam as cada vez mais raras horas de dar música ao manifesto.
A MTV ainda tem a sua presença. Ajuda a projectar globalmente sucessos. Porém, que consequência tem hoje uma opção MTV além, claro está, da sua força junto ao mercado? A MTV é hoje um hipermercado de juventude formatada. Serve imagens em movimento. E algumas músicas. Mas não mais parece capaz de escrever história. Acabou inconsequente e fechada em si como um franchise de hambúrgueres. E como pode um hambúrguer mudar a nossa vida? MTV Killed The Video Star... Ou foi a própria MTV quem morreu e alberga agora outra ideia, que lhe usurpou o nome?"

Nuno Galopim
JORNALISTA
ngalopim@dn.pt
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Eu acrescento, só para finalizar. Se foi a MTV quem criou a Video Star, será que não tem também direito a matá-la?... Se calhar entramos aqui por outros assuntos...